Dia da Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.



Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.



Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!



Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, Poema à Mãe, in Os Amantes Sem Dinheiro

3 comentários :

  1. =') o quanto me apeteceu voar para Lisboa e estar com a minha mãe ao ler este post =|

    Beijinho

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  2. Mas a tua Mãe de certeza que soube que estava no teu coração e tu no dela :-)

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  3. Provavelmente, o mais belo poema à Mãe jamais escrito (eu partilhei um do José Luís Peixoto lindíssimo, também, mas este é este).

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