fifties fashion week #1: new look


Ilustração de René Gruau

Há algo no ar... e não são as últimas brisas quentes de Verão, nem as primeiras folhas secas do Outono. Da runway às revistas de moda, os anos 50 são a grande inspiração para este Outono/Inverno e por isso nada melhor revisitar o ponto de partida desta década icónica, que para a moda se inicia em... 1947 (já vão perceber).

O ano é 1947. A Europa saiu devastada da II Guerra Mundial e só agora, a pouco a pouco, se vão levantando as medidas de austeridade que todos e todas suportaram. Tecido para fazer aquele modelito? Racionado. Logo, toca a fazer saias travadas que não chega para mais. Seda para as meias de liga? Ah, foi toda requisitada para fazer pára-quedas. No problem, pega-se num lápis preto e pinta-se o risco na parte de trás das pernas.

Paris, até então a capital mundial da indústria da moda, sofreu com os anos de ocupação alemã e arrisca-se a perder a sua posição de destaque para a América...


Christian Dior efectuando uma prova

Neste cenário de desolação surge o mais improvável dos salvadores: Christian Dior, um senhor de aspecto tímido e temperamento nervoso que em 8 de Outubro de 1946 funda a sua própria casa de moda. Em 1947 Christian Dior lança a sua primeira colecção, à qual chama Corolle, pelo facto de as saias volumosas recordarem a corola invertida de uma flor.


O tailleur Bar, símbolo máximo do New Look

É a loucura. Neste mundo hipermediatizado em que vivemos no início do século XXI, é difícil transmitir o impacto que as roupas apresentadas por Dior provocam na consciência colectiva. Em total afronta ao espírito de frugalidade vivido por quase uma década, Dior usa dezenas de metros de tecido nos seus modelos. O seu toque de génio foi intuir que, no seu íntimo, as mulheres estavam fartas do racionamento e dos sacrifícios, e desejavam sentir-se de novo belas e femininas. E por mero acaso... o facto de a casa Dior ser financiada pelo magnata do algodão Marcel Boussac também ajudou à fartura. Paletes de tecido, meninas, paletes!


Fotografia de Louise Dahl-Wolfe

Carmel Snow, a editora da revista Harper's Bazaar, "rebaptizou" a colecção como New Look, como desde então ficou conhecida, por representar uma ruptura absolutamente radical com o estilo precedente.


Mas conseguem as leitoras imaginar a magnitude do escândalo? Os modelos Dior eram vistos como exemplos de um luxo tão obsceno que, durante uma sessão de fotografias realizada num mercado de Paris, as vendedoras atacaram as modelos e rasgaram-lhes as roupas. O circunspecto senhor Dior conseguiu que diversos governos de todo o mundo denunciassem publicamente o New Look como uma reprovável extravagância! O governo britânico foi ao ponto de apelar a todas as mulheres inglesas um boicote à Dior. Mas quando o ultimate fashion icon desses anos, a Princesa Margarida, adoptou o estilo Dior... bom, os senhores do governo lá suspiraram e puseram um bulezinho de chá ao lume para se recuperarem do desaire.




Hoje em dia, a associação das palavras "moda" e "escândalo" é corriqueira e traz à mente coisas pouco lisonjeiras, como drogas, distúrbios alimentares, nudez gratuita, sexo, e outras coisas, ai que o artista é um bom artista, vamos continuar mas com cuidado. Em 1947 Christian Dior criou escândalo porque teve a coragem de fazer, simplesmente, algo belo.


Fotografia de Richard Avedon

Amanhã não percam: as verdadeiras e ultra-secretas razões pelas quais alguns vestidos dos anos 50 se aguentam em pé sem ninguém lá dentro...

2 comentários :

  1. Hmmm... aquela última fotografia... Parece que estou a ouvir a voz da Audrey Hepburn - Take the picture! Take the picture!
    Aguardo ansiosamente o post #2! Há pouco tempo vi uma reportagem sobre o Musée de la Mode et du Textile de Paris, em que mostravam o interior de um daqueles casacos, e era admirável. Quem vê a simplicidade do exterior, não imagina o que se passa lá por dentro! Já para não falar na lingerie, que desempenhava um papel determinante no resultado final...

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  2. Ora é exactamente esse o tema principal da próxima entrada... ;-)

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