Ana Salazar


A notícia choca a princípio, depois torna-se uma história demasiado familiar. A criadora Ana Salazar deixou a empresa com o seu nome, e onde desde 2009 exercia funções exclusivamente criativas, não detendo capital na empresa. No comunicado que enviou à imprensa, a criadora refere uma «situação de incumprimento generalizado para com o pessoal, os fornecedores, os parceiros» e para com a própria por parte da empresa Ana Salazar, Lda.

Pela primeira vez desde a criação do evento, a marca Ana Salazar não vai estar presente na próxima ModaLisboa, por não ter sido criada colecção Outono/Inverno para 2012/ 2013. Desconhece-se o futuro da empresa, mas Ana Salazar manifesta a intenção de voltar a criar e recuperar os direitos sobre a marca com o seu nome. E nos próximos tempos desconfio que mais não saberemos sobre isto, pois tudo certamente acabará nas mãos de advogados em busca de uma resolução para o diferendo.

Não é a primeira vez, e nem será a última, que se quebra a ligação aparentemente indiscutível entre um criador e o seu nome. Nos anos 80, após a venda do capital do grupo Gucci a um investidor externo, essencialmente todos os membros da família Gucci* perderam o direito de usar o próprio sobrenome comercialmente na área da moda... Mais recentemente, Roland Mouret perdeu o direito a usar o próprio nome quando deixou em 2007 a empresa (propriedade dos investidores e não do próprio Mouret) na qual lançou a sua carreira , apenas o recuperando em 2010 (e por isso no entretanto criou sob a marca RM by Roland Mouret). E após o despedimento de John Galliano da Casa Dior, mantém-se em dúvida o futuro da marca John Galliano (que é detida em 92% pela Dior) enquanto o criador se mantém numa espécie de rehab/exílio...

Porque parece que Ana Salazar sempre existiu (um pouco como a Rainha de Inglaterra) é fácil esquecermo-nos da influência que ela teve no nascimento da moda urbana em Portugal.

A minha Mãe era cliente da Ana Salazar nos anos 70, primeiro na Maçã, uma boutique que vendia roupa importada de Londres, depois na Harlow (tudo isto ainda antes de 1974, atenção) e depois a partir de 1978, das colecções Ana Salazar propriamente ditas.

É estranho escrever sobre isto porque são coisas que se passaram antes de nós nascermos, e é uma realidade que dificilmente conseguimos imaginar. Eram tempos em que uma rapariga, mesmo em Lisboa, ouvia piropos a cada dez metros simplesmente por vestir umas jeans justas. Vanguarda é pouco para definir o efeito dessas primeiras lojas de Ana Salazar, a explosão de cor na cidade adormecida à medida que as suas roupas se tornaram um êxito entre os jovens. Ainda temos no armário peças desses tempos que eu herdei, blusas e coletes boho chic que fazem pensar em raparigas de cabelos ao vento a ouvir Cat Stevens.

Ana Salazar foi a primeira criadora portuguesa a mostrar em Paris, a primeira a lançar um perfume, a primeira a encetar colaborações com os mais diversos domínios criativos (uniformes, figurinos para teatro, cristais, azulejos). A moda portuguesa como a conhecemos hoje, teria sido diferente sem Ana Salazar.

E por isso tudo isto é uma notícia triste. Mas por tudo o que conhecemos dela, tenho a certeza que não será, não pode ser, o cair do pano para Ana Salazar. Novos dias virão.

* à história da família Gucci só falta um vilão de olho de vidro para ser uma novela sul-americana. The House of Gucci de Sara Gay Forden conta essa história e é daqueles livros que não se conseguem largar... tipo Harold Robbins mas na vida real.

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