opinião impopular do dia

Poster "Rosie The Riveter", EUA, II Guerra Mundial

A maior parte dos "Dias de..." irrita-me. E o Dia da Mulher é dos que me irrita mais. OK, vamos lá fingir durante um dia que nos preocupamos com o assunto tal e tal, publicar jornais em papel cor-de-rosinha, dizer umas vacuidades bem-intencionadas, e assim já ficamos com a consciência limpa durante um ano e podemos preocupar-nos com coisas realmente importantes. Vamos plantar uma árvore em frente aos jornalistas e depois continuar a ignorar os problemas ambientais. Vamos debitar uns lugares-comuns sobre ser mulher, e mãe, etc. e tal, e esquecer que a desigualdade entre os sexos continua a existir em todos os campos das nossas vidas.

Sim, é verdade que as mulheres já não são uma propriedade dos pais ou dos maridos como noutros tempos. É verdade que avançámos anos-luz em relação às vidas que as nossas avós e bisavós viveram. Mas na China abortam-se fetos por serem do sexo feminino. Na Índia violam-se mulheres por terem a ousadia de andar de autocarro. Aqui mesmo na nossa Europa supostamente esclarecida, há "tectos de vidro" por tudo quanto é lado, e neste jardim à beira-mar plantado tiveram de inventar uma lei que obriga a ter uma determinada percentagem de mulheres em cargos políticos, e que mesmo assim não é cumprida.

E todos nós alegremente, mulheres incluídas, continuamos de forma inconsciente a perpetuar estereótipos atrás de estereótipos sobre o papel da mulher e do homem na sociedade. Tomamos a igualdade como um dado adquirido, mas por baixo do verniz do politicamente correcto, os preconceitos que nos incutiram continuam a formatar-nos as vidas. Que o cérebro não é um computador, e não dá para desinstalar o velho e instalar o novo de um dia para o outro.

Nunca me esqueço que há uns anos estava na festa de aniversário de uma criança da família e, entre seis milhões de pequenotes a saltar por todo o lado, um miúdo de uns cinco anos divertia-se a empurrar um carrinho de compras de brincar. Às tantas chega a mãe dele e diz "não mexas nisso, que é um brinquedo de menina".

Não mexas nisso filho, que ir às compras, cozinhar para a família, passar a ferro e tratar dos miúdos é coisa de mulher, é inferior, é secundário. Tu tens de ser o homem da casa, filho, sustentar a família, chegar a casa, descalçar os sapatos e sentar-te à frente da televisão enquanto a mulher te faz o jantar.

Ainda contei isto à minha Mãe e rimo-nos um bom bocado, porque eu em miúda tanto brincava com bonecas e lava-loiças (eu tinha um lava-loiças de brincar que deitava água a sério, era um mimo) como com Legos e pistolas daquelas que disparavam ventosas. Olhem que tinha boa pontaria, alinhava uns animais de PVC na mesa da cozinha e aquilo era um massacre.

Mas a vida é assim, meninos e meninas. A moda é fútil, é coisa de gaja, mas os "maiores" costureiros são homens. A cozinha é para as mulheres, mas os "grandes" chefes de cozinha são homens. E da próxima vez que forem ao cinema, experimentem aplicar o Teste de Bechdel ao filme que estão a ver. Criado por Alison Bechdel em 1985, o Teste de Bechdel mede uma obra de ficção pelos seguintes critérios: (1) tem duas personagens femininas (2) que falam entre si (3) sobre algo além de  um homem. Parece simples, não parece? Mas vão admirar-se com a quantidade de obras que chumbam no teste.

Isto saiu um bocado mais comprido e mais indignado do que eu esperava. Take it or leave it...

N.B.: Eu sei que assim de repente parece que a senhora Rosie The Riveter está a fazer outra coisa mas não, ela está a arregaçar as mangas para ir trabalhar, nomeadamente porque é americana e os americanos não sabem o que é o riquíssimo património cultural do "gesto realizado com os dois braços, cruzando-se um sobre o outro, mantendo-se um deles na vertical, e que serve para ofender alguém". Nem sabem eles o que perdem.

12 comentários :

  1. Bom post!! Concordo com tudo o que disseste, ainda hoje num post para lá de estranho comentei que ainda existe desigualdade...
    XOXO

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    1. Thanks! Mas tens razão, é difícil falar sobre estes temas. Porque agora supostamente toda a gente levou uma lavagem ao cérebro para achar que já não há problema nenhum, somos todos iguais e felizes. E uma pessoa fala em temas difíceis e ainda leva com um "mas és feminista ou quê" porque até isso se tornou uma espécie de termo pejorativo.

      Bjs,

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    2. Claro que há problema, sempre houve e arrisco que sempre haverá, mas a ver vamos... Não somos todos iguais, e os salários de uns e outros espelham bem a chamada "diversidade". A única coisa que vejo para "comemorar" é a "evolução", contudo lembrar sempre que ela não é ainda suficiente e que não é com este género de comemorações que vamos lá, mas isto sou eu claro...
      XOXO

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  2. Não acho que seja uma opinião controversa, é simplesmente a opinião de uma pessoa cultivada e informada! Concordo plenamente com cada vírgula e, como mulher, dou por mim a ter de abdicar de certas coisas para ter credibilidade perante homens, e ainda levar com um "és fútil" à socapa cada vez que surge oportunidade, só porque, por acaso, não estou interessada nas áreas "normais", porque todos temos de gostar de amarelo, afinal, para termos credibilidade e sermos normais.

    Beijinho e feliz dia da discriminação!

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    1. Pois, eu é que hoje estou um bocado do contra. Já acordei mal e depois vi que o Metro (aquele jornal grátis) hoje estava em papel cor-de-rosa e aquilo irritou-me solenemente. Eu por exemplo nunca mencionei no emprego que tenho o blog, porque ai, são coisas de gaja. Embora pensando bem nisso acho que ninguém ficaria muito surpreendido, de tantas vezes que me vêem de baton vermelho ou fuchsia, LOL

      Beijinhos,

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  3. Gostei muito do teu texto :)
    Se em Portugal o Dia da Mulher é uma palhaçada em que tudo tem que ser escrito a cor-de-rosa, o mesmo não acontece noutros países em que se fazem colóquios e sondagens e, em geral, traz-se à tona essas desigualdades de que falas e debate-se uma solução.
    Tudo depende das mentalidade e da maneira com que as pessoas,em geral, interpretam a existência do dia da Mulher..

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  4. muito bem dito.
    como se precisasse de mais um motivo para adorar este blog.
    e enche-me de pó cada vez que vejo alguém (principalmente homens) a felicitar as mulheres por "trazerem beleza ao mundo" ou pelo "milagre da vida". continua a ser só para isso que servimos? (para além de cozinhar e limpar, claro)
    dá-me a sensação que as coisas só estão a piorar...

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    1. Também eu, "milagre da vida" então dá-me cada comichão! Muito bem disse hoje a Edite Estrela (de quem nem sou propriamente fã): “As mulheres ainda são vistas como reprodutoras e não produtoras”. Quanto a piorar, bem, quando as coisa andam mal quem se lixa é o mexilhão, verdade também nisto como em muitas outras coisas! Obrigada e Bjs,

      http://mulher.sapo.pt/atualidade/protagonistas/artigo/as-mulheres-ainda-sao-vistas-como-reprodutoras-e-nao-produtoras

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  5. Well said! And thank you for saying it at all! <3 I feel like a party pooper on this day too, but for god's sake how patronising that feminism gets 1 day out of 365 a year

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    1. Thanks! I'm glad that came across even through the strange workings of Google Translate :-)

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  6. E é por tua causa e da m_I_a que eu este ano nem sequer sinto necessidade de abrir a boca (que é como quem diz, pôr os pensamentos no ecrã). Obrigada.

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