you can't repeat the past

"I wouldn’t ask too much of her," I ventured. "You can’t repeat the past." 
"Can’t repeat the past?" he cried incredulously. "Why of course you can!" 
He looked around him wildly, as if the past were lurking here in the shadow of his house, just out of reach of his hand. 
"I’m going to fix everything just the way it was before," he said, nodding determinedly. "She’ll see."
F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby
E então o que aconteceu foi o seguinte: no exacto dia em que eu publico um elogio a uma peça Saint Laurent já desenhada pelo Hedi Slimane, ele faz-me isto.

 

Uma colecção grunge.

Ó pá, Slimane, assassina-me já com uma tesoura de costura que eu não aguento isto.

Vou esclarecer que tenho idade suficiente para ter passado pelo grunge verdadeiro e próprio no início da década de 90, e olhem que à primeira vez também não me impressionou por aí além. Camisas de flanela, Doc Martens e roupas rasgadas nunca foram a minha cena e se seguem o estaminé já devem ter percebido que o meu estilo pessoal passa por linhas elegantes, coisas bonitas, cor.

Acresce que devo ter ganho uma aversão adicional à corrente grunge por ter passado toda uma viagem de visita de estudo Santo Tirso / Conímbriga, ida e volta, a ouvir vezes sem conta o Unplugged in New York dos Nirvana. Ainda hoje vejo autocarros e autoestradas quando ouço os acordes do Come as You Are.

Eu já não estaria muito virada para apreciar esta colecção fosse em que casa fosse, e aliás o facto de a moda se auto-reciclar de vinte em vinte anos começa a ser um bocadinho irritante. Mas na Yves Saint Laurent, de entre todas as casas possíveis, isto é a maior das desgraças.

Não, não não e não. E acima de tudo, não. Isto não tem nada, nada a ver com a estética da casa Yves Saint Laurent, sim, YVES Saint Laurent e não Saint Laurent Paris ou o que mais inventem a seguir. Quando o Christophe Decarnin saiu da Balmain em 2011, eu escrevi uma entrada devidamente fundamentada com imagens diversas (isto era no tempo em que eu tinha ainda tempo para fazer tais coisas) sobre os desafios dos criadores modernos que pegam em casas de alta costura com décadas (quase séculos) de história. Na altura usei o trabalho do Stefano Pilati na YSL como um dos bons exemplos e escrevi o seguinte:

Não falo de ir aos arquivos e copiar o que já foi feito. Não falo de apresentar sempre as mesmas silhuetas, as mesmas peças. Falo, sim, de pegar no antigo, desmanchá-lo até ao âmago, e criar algo novo. Podem crer que é muito mais difícil do que receber carte blanche e fazer pura e simplesmente o que nos dá na telha...

Mas o senhor Slimane fez o que lhe deu na telha e, enfim, concretizou todos os meus piores receios que se vinham avolumando desde o ano passado. Meus amigos, isto não é a mulher YSL. Mesmo quando se assumia como transgressora, quando vestia roupa masculina, quando soltava os cabelos e desabotoava um botão a mais na sua camisa branca, a mulher YSL sempre foi elegante e sempre fez virar cabeças. Não me venham falar em supostas inspirações na estética YSL do final da década de sessenta, porque YSL transformava a peça mais banal num prodígio de estética.

Isto? Parece roupa saída do caixote dos saldos a €1 na loja chinesa aqui ao lado.

Admito que até certo ponto isto seja uma questão de gosto, sim, e a Leandra Medine do The Man Repeller fez uma defesa inteligente da colecção. Mas eu tenho de concordar, ponto por ponto, com o que escreveu a Cathy Horyn no The New York Times: In terms of design, the clothes held considerably less value than a box of Saint Laurent labels. Without the label attached to them, Mr. Slimane’s grunge dresses wouldn’t attract interest — because they’re not special. But a box of labels is worth a million.

 

Ou resumindo a coisa: é tudo feio como o raio. Se um participante no Project Runway se atrevesse a fazer algo parecido, nem chegava à fase da apresentação, porque o Tim Gunn atirava-lhe com uma máquina de costura à cabeça.

Honestamente, nunca pensei sentir-me satisfeita por ao menos Monsieur Yves não estar vivo para testemunhar esta atrocidade. Mas hoje são os euros e cifrões que falam mais alto, por isso o teste de fogo para esta colecção (e para a carreira de Hedi Slimane na casa Saint Laurent) é ver como isto vende (ou não) nas lojas.

Eu vou só ali ao lado explicar à Courtney Love que não, o Slimane não lhe assaltou o armário.

10 comentários :

  1. LLLLOOOOLLLLL

    Amei...

    Tens toda a razão, também passei o grunge e isto está mesmo péssimo...

    A YSL deveria manter, no minimo a dignidade da Verdadeira casa, como o Sr. Karl consegue fazer com a Chanel!

    Bjs
    joana

    http://freshallure.blogspot.pt/

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    1. O Lagerfeld é um grande exemplo, na sua idade continua a ser original e criativo (recorde-se que ele também orienta a Fendi) e a fazer roupa que Coco Chanel poderia criar se vivesse nos dias de hoje...

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  2. eu sou suspeita porque tanto como gosto de um estilo sharp e elegante também adoro um look trashy grunge, mas realmente é uma colecção que não faz jus ao nome que representa, poderia ser um estudante de moda a fazer isto...

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    1. Está bem dito! Até porque o verdadeiro grunge era feito de peças do dia-a-dia, e não de t-shirts rasgadas com etiquetas de marca vendidas a €500. Isto é um grunge de meninos ricos mimados!

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  3. Concordo com tudo o que escreveste. Não sei como vão vender esta colecção.

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    1. Eu até estou a torcer para que não vendam, é como o Slimane se pisga mais depressa...

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  4. Esta colecção foi um autêntico desastre sem explicação!!

    http://hiimab.blogspot.pt

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    1. Sim, eu tinha isto desde a semana passada atravessado na garganta! Normalmente nem gosto de escrever críticas, mas isto ofendeu-me de tal forma como fã YSL que tinha de deixar tudo dito!

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  5. Devo confessar que tb não é das minhas preferencias :/

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  6. Muito bem escrito, parabéns (partilhei na página do meu blog)!
    Concordo plenamente contigo. Aliás, posso-te dizer que no dia do desfile, quando o Style.com lançou as fotos nem sequer cheguei a ver a terceira, tive de fechar a janela. O meu pensamento foi mesmo 'Para além de mudar o nome, quer também mudar toda uma estética de décadas de uma das marcas mais reconhecidas de sempre? Isto não é YSL!!'.
    Foi como no caso Balmain, como já referiste (apesar de não desgostar de algumas das peças do Christophe). Estes nomes não chegaram onde chegaram sem uma razão aparente, não percebo como é que há designers que, de repente, querem adaptar uma marca com estilo e nomes próprios para algo à sua imagem e semelhança. Enfim!

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