O velho, o rapaz e burro [uma fábula sobre empreendedorismo]

Era uma vez na Grécia antiga um senhor chamado Esopo que escrevia histórias ou como ele gostava de lhe chamar, fábulas. A sua obra passou de geração em geração até que muitos anos depois um francês chamado La Fontaine resolveu escrever versões novas dos contos de Esopo. E mais gerações passaram ainda, até que a grande Sophia de Mello Breyner Andersen pegou numa dessas fábulas e a contou em verso:

O Velho, o Rapaz e o Burro

Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.

Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
  
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.

 Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!

 O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!

O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou: 

-Bem se vê que o mundo está transtornado!    
 O pai vai a pé e o filho montado!

O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.

Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:

Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!

Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:

Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.

Porque é que estou a contar-vos estórias de encantar? Porque este país às vezes esgota-me. Fala-se agora tanto em iniciativa, em apoiar a nossa indústria e agricultura, "o que é nacional é bom" etc. tal, mas essa conversa rapidamente salta pela janela fora quando se passa das palavras à acção.

Na semana passada circulou sobejamente nas redes sociais o momento inesquecível do programa Prós e Contras em que um rapaz de 16 anos contrapôs à verborreia intelectual de uma investigadora académica, alguns factos simples que logo a deixaram sem resposta. Eu geralmente não sigo o Prós e Contras - os debates às vezes parecem-me "conduzidos" para determinados resultados e perigosamente perto da demagogia - mas achei o momento um resumo perfeito de alguns problemas da sociedade portuguesa num minuto e meio.

O tema era "Empreendedorismo" e entre o público contavam-se vários jovens empreendedores convidados para o programa, um deles o Martim Neves de apenas 16 anos. O Martim tinha talento para a ilustração e um belo dia teve a ideia de fazer desenhos para estampar em T-shirts e camisolas. Contactou uma empresa para tratar da estampagem e a seguir ofereceu algumas T-shirts às miúdas giras da escola para ter divulgação (acho este pormenor delicioso) e começou a vender o seu produto. Uma coisita simples, provavelmente com a ajuda dos pais, mas quantos de nós aos 16 anos nos lembraríamos de algo assim?

Então estava o Martim a falar do seu projecto com aquele brilho nos olhos e vontade de mudar o mundo que apenas um jovem de 16 anos pode ter, quando a senhora  doutora Raquel Varela, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa lhe interrompe a palavra e com ar sobranceiro pergunta "Tu tens ideia de onde é que as camisolas são feitas, se são feitas na China por trabalhadores a ganharem dois dólares por dia e uma tigela de arroz?"

O Martim responde "Por acaso são feitas por uma empresa portuguesa, porque..."

"E essa empresa portuguesa, quanto é que ganham os trabalhadores, é que maioritariamente nas empresas têxteis os trabalhadores ganham o ordenado mínimo, o que segundo a Organização Nacional ... a Organização das Nações Unidades neste momento não é suficiente para viver, compreendes isso?"

"Esses tais trabalhadores que ganham o ordenado mínimo pelo menos não estão no desemprego, que é uma realidade..."

E entretanto o público desata a aplaudir e a senhora doutora Raquel Varela fica ali calada com um sorriso amarelo como poucos alguma vez se viram neste jardim à beira-mar plantado.

Isto foi um perfeito exemplo de como a forma e a atitude com que se apresentam os argumentos nos podem fazer perder uma discussão, mesmo que esses argumentos sejam inteiramente válidos. Esta senhora perdeu a razão no momento em que interrompeu o jovem que estava a falar, e em voz cheia de desdém e superioridade começou a debitar os seus argumentos julgando que facilmente conseguia tripudiar e fazer um brilharete, à custa da humilhação de um adolescente. Saiu-lhe mal a encomenda.

Ninguém tem dúvidas que há centenas de milhões de pessoas por todo o mundo a trabalhar em condições de verdadeira escravatura para que possamos ter os nossos bens de consumo a preços apetecíveis. Escrevo parte destas linhas num iPad cuja legenda diz "Designed by Apple in California. Assembled in China" o que convenhamos, é o cúmulo da hipocrisia. E também ninguém tem dúvidas que mesmo nos países desenvolvidos e especificamente em Portugal, é difícil viver e sustentar uma família com o salário mínimo. Isto nunca esteve em discussão.

Mas atirar isto à cara do Martim, de 16 anos, teve algum efeito útil? O que é que esta senhora doutora esperava exactamente? Que o Martim fizesse um pseudo-exame de consciência em directo e concluísse que, como o seu projecto dependia, talvez, hipoteticamente, da potencial "exploração" de outras pessoas, mais valia ficar quieto e não fazer nada? Assim tipo aqueles monges budistas que varrem o chão à sua frente para não pisar um insecto sem querer?

Em que é que ficamos? Se não fazemos nada somos um povo sem vontade empreendedora. Mas no momento em que alguém faz alguma coisa, é um capitalista selvagem. E pimba, atiramos-lhe para cima dos ombros o peso de resolver sozinho os desequilíbrios da economia mundial. 

É que reparem, o mérito do Martim neste micro-debate foi simplesmente responder com senso comum e alguma ingenuidade. Ele não pensou na resposta, apenas contrapôs factos que lhe pareciam simples e auto-evidentes.  E depois da sua semana na ribalta como herói das redes sociais, só espero que ele volte aos estudos e prossiga calmamente com o seu projecto. Sem ruído.

Ainda fiquei uns tempos a matutar nisto. E nem de propósito, ontem apareceu-me o perfeito reverso da medalha. Aqui há uns tempos a Carmo publicou umas fotos de umas sabrinas pretas clássicas lindas de fabrico português, chamadas Josefinas. Claro que a entrada ficou logo cheia de comentários a perguntar onde se podiam comprar! Ora ontem a Maria Guedes publicou no seu Stylista a notícia da loja online das Josefinas, com mais informação sobre o projecto. As Josefinas, diga-se de passagem, são feitas à mão e com materiais escolhidos com todo o cuidado, por dois mestres sapateiros em São João da Madeira. Mais old school que isto não há.

Qual não é o meu espanto, quando vejo que a maioria dos comentários à entrada do Stylista consistiam em pessoas que achavam "escandaloso" o preço das sabrinas, que é de € 95, e que na Zara compravam umas sabrinas por € 20 e coiso e tal. 

Eu sou um bocado tímida, o que faz de mim talvez a blogger mais incompetente do mundo em termos de contactos com marcas e agências de publicidade  (pois, honestamente é quase zero porque tenho vergonha de lhes escrever e nem sei o que diria) mas fiquei tão indignada com isto que escrevi imediatamente à Maria e à Filipa, autoras do projecto Josefinas, a manifestar-lhes o meu apoio.

Porque é este o mundo que temos agora, e são estas as pessoas que a senhora  doutora Raquel Varela devia tentar consciencializar para o verdadeiro preço da sociedade de consumo. Somos uma geração que cresceu a comprar roupas e acessórios feitos em países subdesenvolvidos por operários que ganham cêntimos por dia, em condições de higiene e segurança nulas. 

Perdeu-se o valor do trabalho artesanal. Eu tenho algumas sabrinas Repetto e também umas PrettyBallerinas, ambas marcas que rondam os € 200 e que eu persigo nos saldos por ser uma consumista forreta. Olhem que eu cuido imenso os meus sapatos, mas ainda assim estão todas em óptimo estado e têm anos e quilómetros em cima. 

Eu sei muito bem quanto duram uns sapatos de € 20 comparados com uns sapatos de € 100. Há coisa de oito anos tive uma carteira branca da Mango que se desfez em três meses. Repito, desfez-se. Desde então raras vezes compro carteiras ou sapatos em materiais sintéticos.

É no valor a longo prazo que está a verdadeira mais-valia do trabalho de qualidade, comparado com o "usa e deita fora" a que a nossa sociedade se habituou. E ainda mais no domínio do calçado: sabiam que a indústria portuguesa do calçado é altamente reputada a nível mundial no segmento de luxo? Somos os mais caros do mundo a seguir aos italianos, mas quase só trabalhamos para marcas estrangeiras. Lembram-se do calçado Martin Margiela X H&M que era todo de fabrico português? É este o caminho a seguir, porque nós neste nosso cantinho, pura e simplesmente não temos dimensão para concorrer em preços com uma Índia ou uma China. As nossas indústrias têm de apostar na qualidade e nos nos nichos de mercado.

Já estou para aqui a alongar-me e só posso concluir de uma maneira: não podemos ter tudo. Ou temos roupa a € 20 feita no Bangladesh em fábricas que de vez em quando se desmoronam, ou temos peças feitas com perícia e materiais de qualidade, por pessoas que respeitam o seu trabalho e que sobretudo, ao fim do dia se sentem respeitadas no seu trabalho. Há uma escolha a fazer e essa escolha tem consequências.

É óbvio que eu não vou ser hipócrita, porque infelizmente também não sou milionária e portanto continuarei a comprar roupa e acessórios nas Zaras, Mangos e H&Ms desse mundo. Mas precisamos de perceber que há uma diferença entre uns sapatos de € 20 e uns sapatos de € 95 e ter consciência dessa diferença quando escolhemos o produto que compramos. Não podemos comparar coisas que nada têm a ver uma com a outra!

O projecto das Josefinas tem todo o potencial para vingar junto de quem ainda dá valor à qualidade. E espero sinceramente que no futuro cada vez mais pessoas tenham a coragem demonstrada pelo Martim, pela Filipa, pela Maria, em ousar uma ideia nestes tempos em todos fazem comentários, mas poucos têm vontade de fazer algo que se veja.

O estaminé já volta à programação habitual. Eu é que tinha de deitar isto tudo cá para fora.

15 comentários :

  1. Outra questão a ver: desde quando é que uma pessoa que sub-contrata uma fábrica para lhe produzir o que quer que seja, tem acesso - mesmo que queira!!!!!! - às folhas de pagamento dos trabalhadores??? Não percebi essa... Isso no ramo da construção e das obras públicas havia de ser lindo!!! Uma coisa é irmos por reputação e ética (aquilo de que ouvimos falar, lá está), mas como que raio saberei eu quanto ganham os trabalhadores de uma fábrica em "S. Jorge de Murenhanha"??? Não percebi a intervenção da mulher, juro que não!!!!! -.-

    PS - AMEI o post!!!! ahah

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    1. Obrigada. Essa questão da sub-contratação é difícil mas não impossível. A verdade é que marcas como a Inditex e a H&M já começam a ter consciência de que a sua reputação não sai bem vista de histórias como o colapso da fábrica no Bangladesh, e então quando fazem encomendas às fábricas obrigam-nos a declarar no contrato que cumprem os regulamentos de higiene e segurança, e o salário mínimo. Se incumprirem, a marca pode cancelar o contrato. Mas isto são histórias de milhões e as marcas têm imensa força de negociação! Obviamente que no caso do Martim nem ele se lembraria disso, nem a fábrica acederia a dar a informação...

      Sem querer tirar mérito ao trabalho académico da senhora doutora, aquela intervenção foi toda ela uma confrangedora falta de senso...

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  2. Sabes o que acho mais triste ainda? A maioria das pessoas vai à Zara, que há muito deixou de ter preços assim tão acessíveis e embora ainda se encontre uns pares ou outros de 20€ para cima, a maioria dos sapatos hoje em dia passa dos 50€. Sapatos que se desfazem, não são confortáveis, cheiram a plástico e estão cheios de defeitos. Percebo que 95€ possa parecer escandaloso para muitas pessoas porque não o poderão gastar, no entanto a qualidade do projecto justifica e acredito que existirão muitas pessoas a apoiar. Existem malas na Zara com um valor semelhante a esse e que vejo "aos montes" na rua. Talvez se a marca não fosse portuguesa o preço parecesse mais justificável para alguns.
    Infelizmente às vezes nem sempre aquilo que merece mais atenção e apoio como marcas portuguesas o tem e as Zaras da vida (não tenho nada contra, provavelmente 90% dos nossos closets são de lá e o meu também) praticam preços absurdos se soubermos quanto eles pagam por cada peça.

    Beijinhos

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    1. É isso mesmo. Há um comentário no Stylista que me chocou especialmente: é alguém que diz "esse dinheiro dou eu por umas sabrinas Carolina Herrera" ou parecido. Portanto, esta pessoa não está interessada em pagar o trabalho da confecção. Quer é ter um CH nas sabrinas. O que é estrangeiro é bom e fino, o português é sempre o parente pobre e barato. Enfim...

      Bjs

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  3. Não conhecia o teu blog (fiquei a conhecer agora graças à Xana, do Xanalicious), mas a partir de hj e depois de tudo isto que li, vou passar a ser frequentadora assídua! CLAP CLAP!! Muitos parabéns, essa 'raiva' que deixas transparecer nesse post é tbm o sentimento q de vez em quando me assola quando vejo vídeos como o do Martim, ou leio histórias como esta das Josefinas! Parabéns :)

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    1. Obrigada. Este cantinho normalmente é mais bem-disposto, mas há dias em que tem de se partir a loiça! :D

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  4. Realmente gostei do texto e concordo contigo!! Principalmente ao nível do calçado primo sempre pela qualidade ao invés da quantidade.

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    1. Se os sapatos doem, todo o resto pode ser Gucci e Chanel, mas nunca estaremos bem. Portanto, o calçado vale cada cêntimo que gastamos a mais!

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  5. Subscrevo a tua opinião. Em relação ao projecto Josefinas, fiquei chocada com os comentários que li nos blogs que citaste. Como se uma pessoa fosse comprar um par de flats pelo "renome" ou pelos logos! Infelizmente é a mentalidade que ainda prevalece, mas penso que há um nicho para este projecto e um punhado de mulheres que prezam a qualidade que estão dispostas a tentar a marca. Estou tentada com as pretas, ainda nao encomendei porque nao tenho certeza do meu tamanho! Obrigada pela partilha.

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    1. Eu ainda vou ver se consigo visitá-las no Coolares, senão é mesmo só a questão de escolher a cor (sou sempre 36...)

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  6. Bravo!

    E eu ainda acrescentava mais, há uma diferença entre um sapato de €20, um de €95 com qualidade, comércio justo e sustentável e um sapato de €300 onde pagamos apenas e somente o logotipo da marca.

    Os sapatos portugueses estão desde sempre no top 10 mundial dos melhores sapatos do mundo, fartam-se se venderem lá fora por que cá dentro ninguém quer, ninguém pode pagar e mesmo se pudesse provavelmente iriam preferir 5 pares de €20 da Zara.

    Eu já me conformei que por muito que queira, ainda gosto da quantidade à qualidade, porque a moda é cíclica, é passageira, a não ser as peças clássicas e intemporais, não invisto em peças de qualidade - shame on me - mas para que investir um dinheirão em sapatos cor neon se daqui a um ou dois anos não vou mais querer usá-los right?

    não querendo perder o foco da história, só ouvi a história por alto e sendo eu aspirante a "Economista", só conheço uma economia perfeitamente em equilíbrio na teoria e mesmo assim, infundada, parabéns aos nossos empreendedores e por teres partilhado o post. Logo quando soube das Josefinas, antes mesmo de abrirem o site eu já imaginava que os preços seriam elevados e que iriam refilar... a qualidade paga-se!

    Beijinho

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  7. Obrigada pelo contributo! Todos os sistemas são perfeitos na teoria mas a realidade é que nos põe às voltas. Fazes bem em realçar essa questão da "marca" pois ainda outro dia se noticiou que a Vuitton aumentou os preços para ser mais exclusiva! Neste lado do mercado a lógica é toda ao contrário e a partir de um certo ponto, o preço já não reflecte o trabalho e é um mero símbolo de status. Resta a cada uma de nós tomar as suas decisões em conformidade!

    Bjs

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  8. Concordo com o que dizes mas que fui os comentários do blog da Stylista e o que me parece que dizem lá é que não duvidam da qualidade mas 95 euros é mesmo muito dinheiro. O que é apenas um facto. As sabrinas são giríssimas e precisamos de muita gente com vontade e coragem para fazer coisas acontecerem mas, infelizmente, em Portugal a maior parte das pessoas não tem 95 euros para dar por umas sabrinas, por mais que saiba que são de boa qualidade, por mais que saiba que seria um bom investimento.

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  9. Quando li o post e comentários no blog da Maria Guedes, tive de fechar o computador para não desatar a chamar nomes feios a toda a gente. Juro-te que fiquei transtornada com a ignorância ali escarrapachada. Para além da mesquinhez e do provincianismo (o exemplo do " por esse valor compro umas Carolina Herrera - ao menos tem o CH bem visivel)", a ignorância é assombrosa. Acredito que nunca aquelas pessoas pensaram na margem de lucro que uma empresa destas tem de ter para conseguir sobreviver, pagar pelo menos o ordenado às duas pessoas que provavelmente deixaram os seus empregos para investir nesta ideia. Não fazem ideia do quanto custam as matérias primas, a mão de obra, os impostos que têm de pagar... Ainda fazem insinuações completamente gratuitas "gostava de saber se as senhoras pagam factura".... é tão, tão triste e revoltante ver como as pessoas são invejosas e cruéis.
    Aqueles comentários deixaram-me deprimida e com pouca fé neste país.

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    1. Como te compreendo! Foi por me sentir exactamente assim que tive de escrever isto e deitar tudo cá para fora. É realmente admirável que no meio de tudo isto ainda haja pessoas com a coragem para lançar projectos como estes!...

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