das idades de ouro

É apanágio do ser humano idealizar o passado, sonhar o futuro e esquecer-se de viver no presente. O passar do tempo deposita sobre as dores e as alegrias vividas uma luz cálida e dourada, a memória adoça-se e tudo ganha a qualidade de um conto de fadas. E assim suspiramos por recordações que nunca vivemos, mas que nos foram transmitidas numa aura cálida de saudade misturada com a desilusão de um presente em que algo (o que? não sei) se perdeu.

Hoje o Eusébio morreu e eu estou triste porque me faz recordar o meu Avô.

O meu Avô era o maior benfiquista que eu já conheci. Porque era o meu Avô. Ele viveu a era dourada do Benfica, assistiu pela rádio, pela televisão e no estádio a jogos lendários, chorou de alegria com golos do Eusébio. 

O meu Avô passou os seus últimos anos com doença cardíaca prolongada, a tomar comprimidos de nitroglicerina como se fossem rebuçados para ver os jogos do Benfica. A zangar-se com os amigos e a sair irritado do café porque mesmo quando ganhava o Benfica não tinha jogado bem. Não tinha jogado à Benfica

O Benfica à Benfica é a Atlântida dos benfiquistas. Ideal impossível em si mesmo, representa um momento perfeito que se pode situar algures no início da década de sessenta, com duas Taças dos Campeões Europeus no palmarés, o Bela Guttman a treinar, e o Eusébio e o Torres no ataque. É um GOOOLO! a gritar na telefonia, dois dribles e um remate de cabeça, é um tempo em que tudo era mais simples e mais inocente. 

É uma lenda que começa sob o sol glorioso de África com um menino a jogar descalço com uma bola de trapos, e cristaliza numa camisola vermelha, com muito suor, muitos golos, lágrimas e alegria pelo meio. 

O Eusébio teria sido um prodígio da bola em qualquer clube. Calhou de ser no clube em que eu nasci (porque cá para mim nasce-se para um clube, não se escolhe). Calhou de ser o Eusébio o jogador cujos golos emocionaram o meu Avô e o fizeram feliz numa sucessão de momentos irrepetíveis mas inesquecíveis, a bitola pela qual ele nunca deixou de julgar os Benficas que se seguiram. 

O meu Avô morreu, aliás, tal como o Eusébio, no mês em que fazia anos. 

Nunca mais haverá um Benfica à Benfica e eu nunca mais vou abraçar o meu Avô. 

Mas haverá sempre um Benfica à Benfica e aquele momento perfeito que eu não vivi também é meu, porque era do meu Avô. E nesse momento perfeito como em muitos outros momentos partilhados, nós estamos juntos para sempre mesmo que ele já não esteja aqui. 

Nesse momento perfeito, algures, o Eusébio acaba de marcar um golo.

Imagem publicada no Facebook d'A Pipoca Mais Doce

2 comentários :

  1. Emocionaste-me.
    Nasci numa família como a tua e o meu avô continua a irritar-se (ele funga muito quando está irritado) e a sofrer pelo Benfica. Com o Benfica. Eu sou a ovelha ronhosa, sem clube, talvez porque o meu outro avô, que já morreu há muitos anos e de quem tenho muitas saudades, fosse do FCP. Assim posso dizer mal de todos e torcer por quem me apetecer na altura, que é normalmente o clube daqueles que estão perto: amigos, familiares ou a caixa do supermercado. E acabo por ter sempre alegrias, que são as alegrias dos outros.

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    1. As alegrias dos outros às vezem sabem melhor que as nossas. Obrigada.

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