a problemática da calçada portuguesa

A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou um documento intitulado Plano de Acessibilidade Pedonal que prevê a retirada da calçada portuguesa de algumas zonas da cidade e a sua substituição por pavimentos alternativos mais seguros. As zonas históricas / turísticas terão a calçada preservada. 

Previsivelmente, tenho metade do Facebook a aplaudir a medida e a outra metade a lamentar-se pela perda de um elemento arquitectónico essencial para a identidade de Lisboa. 

Querem adivinhar em que equipa estou? 

Eu respeito os defensores da calçada portuguesa mas antes que mais há que identificar uma falácia que normalmente envenena irremediavelmente esta discussão. Como tantas coisas na vida, há que diferenciar entre o ideal e o concreto; não é coisa nova e já o velhinho Platão o preconizava.

O ideal: a calçada portuguesa idealizada (a que passarei a referir-me como Calçada Portuguesa) é um mosaico impoluto de pedrinhas criando desenhos diversos. É lisinha, lisinha, boa para andar e feita com intenso cuidado e amor por artesãos com muitos anos de prática (recorde-se que existe em Lisboa uma Escola de Calceteiros que presta formação neste ofício). E conserva-se muito bem, como o provam as calçadas das ovais da Avenida da Liberdade que têm largas décadas.


O concreto: a calçada portuguesa real, aquela com a qual vivem uns bons 80% dos lisboetas (e vou referir-me a esta como “calçada portuguesa”) é uma tradução do conceito da Calçada Portuguesa projectado por Salvador Dali, porque ondula como os famosos relógios pintados por este senhor. É feita às três pancadas por operários sem formação, utilizando materiais de segunda. Desmancha-se em poucos anos, abre frestas, as pedras desalojam-se, e em casos especialmente perigosos começa a sofrer de um efeito de polimento que transforma qualquer ida à rua num desporto radical.


E por algum perverso destino, parece que quanto mais inclinada uma rua, mas polida é a calçada. Sorte infeliz numa cidade que foi amaldiçoada com uma geografia infernal de íngremes altos e baixos. Vão impingir a outro essas historinhas românticas das sete colinas. Não é por acaso que a minha cidade ideal é Manhattan, lisa como um espelho d'água e cruzada por ruas traçadas a papel quadriculado. Querem experimentar dizer aos novaiorquinos que a cidade deles não tem personalidade? Recomendo que o façam a uma distância segura que ainda apanham um calduço.

São as pessoas que fazem as cidades.

As vítimas da “calçada portuguesa” não são só as senhoras de saltos altos, meus caros. As vítimas da “calçada portuguesa” são todos os lisboetas e todos os visitantes desta cidade. São os idosos e as pessoas com problemas de mobilidade que se movem a custo como quem põe o pé em vara verde. São qualquer cidadão que sai à rua num dia de chuva e acaba a patinar pela rua fora.

Eu sou uma defensora e amante da Calçada Portuguesa mas sou ferozmente contra a “calçada portuguesa”. E há muito tempo que perdi a esperança de ver uma cidade pavimentada toda ela com Calçada Portuguesa executada com profissionalismo e qualidade, portanto vamos deixar-nos de fingimentos e assumir que isso é uma coisa do passado. Vamos também entender de uma vez por todas que preservar a identidade de uma cidade passa por criar condições para as pessoas que nela vivem, para que os espaços se mantenham dinâmicos e habitados por pessoas reais em vez de se transformarem num Portugal dos Pequeninos para turista ver.

Porque uma coisa é defender a tradição e outra coisa é impingir às pessoas um sucedâneo mal feito em nome dessa tradição. E por isso eu aplaudo o Plano de Acessibilidade Pedonal da cidade de Lisboa. Venham de lá esses pavimentos alternativos que eu tenho saltos altos para usar.

4 comentários :

  1. Muitas, mas mesmo muitas palminhas, que isso de se defender o Ideal, em detrimento do que de facto temos à nossa frente, só mesmo para Platão...

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    1. Mas é uma cegueira de que muita gente sofre, sobre muitas coisas na vida *suspiro*

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  2. 100% d'acordo!

    (porque carga d'água as "beatas" p'ra manterem a tradição não vão de véu à missa???)

    Margarida Priso

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    1. Hahaha! Não havia igreja onde coubessem todas :D

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