sobre desilusões e surpresas agradáveis


Nos últimos anos tenho sentido um progressivo desinteresse pela imprensa de moda, tanto nacional como estrangeira, que se reflecte numa cada vez menor compra de revistas. Há uma combinação de factores que contribuem para isto, é certo, sendo o primeiro deles o facto de conseguirmos actualmente obter tanta informação por via digital.

Mas a verdade é que as próprias revistas parecem estar a ficar presas em determinados hábitos e maneirismos, e em vez de evoluir, andam para trás. Eu lembro-me do tempo em que a Elle francesa era uma revista interessante que valia a pena comprar, pelo menos quando fazia os especiais da estação - um de moda, um de beleza e um de acessórios. Ah, como eu adorava o especial de beleza! Aparentemente deixou de ser feito nos últimos anos. A revista parece ter cada vez menos conteúdo interessante.

E a Vogue? O desastre, é o que é. Houve uma fase em que ainda comprava com alguma regularidade a revista, sendo que a americana custava € 5,70 e pelo menos nas edições de Março e Setembro valia bem a pena. No entanto, de há dois anos para cá a distribuição de revistas estrangeiras em Portugal enlouqueceu... a Vogue americana passou de € 5,70 para cerca de € 11 (o último número de Setembro custou € 17,60, devem vendê-la ao peso), a Vogue Australia que custava cerca de € 11 passou para os € 20, a Allure tornou-se praticamente impossível de encontrar.

Ora, por estes preços compro livros.

(e já agora, um interlúdio para proferir IMPROPÉRIOS SORTIDOS contra a Amazon.co.uk que deixou de oferecer portes grátis para a Europa nas encomendas de valor superior a £ 25; se quiserem assinem a petição online criada por um simpático dinamarquês no Change.org, não sei se servirá para alguma coisa mas ao menos os senhores amazónicos ficam a saber que estamos chateados, pois com certeza)

E onde ia eu? Ah, livros. E revistas. Eu talvez vivesse com o aumento dos preços se a Vogue americana, que eu um dia amei, mantivesse a sua aura mítica. Mas parece-me que estamos a passar do ouro para o pechisbeque. Não tenho nada contra o Kanye West (gosto da música dele) e a Kim Kardashian, mas francamente, o que fez esta miúda na vida para conseguir uma capa da Vogue? Uma pessoa que casou de propósito para vender o exclusivo a uma revista e se divorciou 72 dias depois? Com licença, que a divina Naomi Campbell explica o que há de errado com isto, infinitamente melhor do que eu:


E concluo assim: há algo de muito errado quando a caricatura (a divina Meryl Streep como Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada) ultrapassa o original (Anna Wintour) em originalidade. 

Já só compro o número de Setembro. E não me larga a sensação de estar a folhear um catálogo e não uma revista.

Faz falta uma passagem de testemunho? Bom, a Vogue Paris foi por aí com a saída de Carine Roitfeld, substituída por Emmanuele Alt um bocado à bruta depois de uma polémica sobre uma photoshoot com uma modelo de 12 anos. Eu não era fã do estilo, editorial e não só, de Roitfeld; e não o sou de Alt, que é uma espécie de Roitfeld-lite cruzada com parisienne clássica.

Sobre as revistas nacionais, quanto menos disser melhor. Lá as vou folheando em casa de família ou amigos, mas não sou fã. Sempre achei a Máxima uma revista com ares de "tia", a Vogue portuguesa foi uma desilusão e a Elle nos últimos meses cometeu uma espécie de suicídio editorial, ao mudar para um formato ligeiramente menor e passar a usar um papel que, desculpem-me lá, é bastante rasca para uma revista de moda que custa € 3,50. A Lux Woman custa € 2 e tem melhor papel, melhor aspecto e melhor conteúdo.

No meio desta franciscana pobreza, descobri em 2011 o projecto The Gentlewoman e desde então sou leitora inveterada desta revista diferente, original, cheia de conteúdo e pontos de vista interessantes e inesperados. Até fiz uma assinatura para evitar andar à caça da revista a cada seis meses!

Recentemente outra surpresa agradabilíssima foi a revista PORTER, criada pelo grupo Net-a-Porter. É um paradoxo fascinante, esta revista. Afinal, nenhuma outra teria tanto potencial para ser um mero catálogo de roupas e acessórios, certo? E no entanto... o primeiro número foi uma lufada de ar fresco. Há ali uma perspectiva nova, uma sobriedade, um olho para temas interessantes. Claro que há utilização e referência a peças disponíveis nas lojas do grupo (Net-a-Porter, Mr. Porter e The Outnet) mas achei tudo surpreendentemente subtil. 

Lembra-me a Câmara dos Lordes. Eu explico. Na faculdade, um professor de Ciência Política partilhou certo dia connosco a sua opinião sobre o sistema parlamentar inglês: que os Lordes, por não serem eleitos em sufrágio (herdam o lugar hereditariamente, ou são nomeados pelo monarca), tinham o potencial para ser mais democraticamente livres que os deputados eleitos para a Câmara dos Comuns, que tinham de fazer campanha, promessas, etc. e tal. A figura aplica-se perfeitamente à PORTER. Como já tem meio caminho andado na questão dos contactos com as marcas e venda de páginas de publicidade, como tem outro projecto lucrativo por trás (as lojas online), tem o potencial de dispor de maior liberdade editorial que as outras revistas, escravas da venda de páginas de publicidade...

E em jeito de conclusão não posso deixar de referir a GRANTA Portugal. Um projecto que ousou avançar em tempos particularmente complicados para a cultura, mas que eu considero uma revelação. É um misto de livro e revista, com um formato em série de contos à volta de um determinado tema para cada revista. Perfeita para ir lendo de forma descomplicada e surpreender-nos de mansinho.

2 comentários :

  1. Concordo contigo em tudo, como quase sempre, só achei a entrevista da Naomi completamente parva.... É uma modelo e trabalha há 28 "para fazer capas da Vogue" (por ter o estatuto que tem, se me faço entender), mas..... As coisas mudam, o mundo evolui, la la la.... Era o mesmo que dizerem: tu não trabalhas no mundo da moda, quem raio és tu para criares um blog? Quando sabemos que as bloggers são, tantas vezes, mais "despertas" para o mundo da moda do que tantas jornalistas. Acho que faz parte da evolução.... E a própria Naomi se não tivesse tanta polémica de roda dela, também já não fazia capas há muitos anos, não me venha cá com cantigas que trabalha há 28 anos -.-''' Enfim, achei parvo :P Beijinhos

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    1. Eu percebo o teu ponto de vista quanto à Naomi :-) Ela anda nisto há muito tempo e penso que ela percebe que já transicionou de "modelo" para "personalidade" e traduzindo: ela sabia perfeitamente que dizendo aquilo, no dia seguinte estava a ser noticiada em todo o mundo. Mas que foi engraçado, foi! Bjs,

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