007 SPECTRE (e uma reflexão sobre irrealismo no cinema)


Depois do estupendo 007 Skyfall ter colocado a fasquia incrivelmente alta, os produtores dos filmes James Bond decidiram que em equipa que ganha não se mexe, e voltaram a contratar o realizador Sam Mendes. Aposta ganha. 007 SPECTRE mantém a qualidade e brilhantismo do filme anterior. É simplesmente fantástico.


Desde logo tem uma das melhores aberturas de toda a série Bond, uma perseguição durante uma parada do Dia de Los Muertos na Cidade do México. Depois tem Monica Bellucci, divinal, numa passagem infelizmente fugaz.


Alguém devia ter avisado a produção  que existe uma quota mínima de Monica Bellucci, porque este filme não a atinge. É um dos pequenos reparos que tenho a fazer ao argumento do filme (o outro tem a ver com uma certa opção narrativa e não vou mencioná-lo aqui, porque é spoiler).


Em Skyfall e também neste SPECTRE, os colaboradores de Bond no MI6 têm uma presença maior do que até aqui habitual na série Bond. Moneypenny, M, Q e Tanner formam uma equipa invejável que não fica atrás do próprio James Bond em coragem e lealdade à pátria inglesa. E o Q é um geek tão querido que dá vontade de levá-lo para casa.


A outra presença feminina no filme é a francesa Léa Seydoux, que consegue evitar certos estereótipos das chamadas "Bond girls" e revelar substância. Infelizmente a sua personagem Madeleine Swann protagoniza aquele que eu considero o grande momento de irrealismo do filme, e não posso deixar de fazer um sério reparo à equipa de maquilhagem e guarda-roupa para que erros destes não voltem a repetir-se. 

(nos parágrafos seguintes discutem-se pormenores do enredo, vulgo spoilers)


Então o que se passa é que a dada altura Bond e Madeleine estão algures em Marrocos num comboio chique. Os produtores da série Bond claramente têm uma obsessão por comboios chiques tipo Expresso do Oriente, daqueles onde as pessoas se vestem para jantar em mesas com toalhas brancas e copos de cristal, e há empregados que nos passam a roupa a ferro. Há pelo menos mais dois filmes 007 com comboios chiques: Da Rússia com Amor, protagonizado por Sean Connery, e o primeiro filme de Daniel Craig, Casino Royale.

É tudo muito bonito e romântico, quiça utópico para quem viaja habitualmente na CP. O mais próximo que alguma vez estive disto foi há umas semanas, em que calhei de partilhar a carruagem com um animado grupo que regressava de uma feira de vinhos e passou toda a viagem de Lisboa até à Invicta a oferecer vinho do Porto aos ocupantes da carruagem...


Como é possível ver pelas imagens, Madeleine está impecavelmente vestida e maquilhada, com batom vermelho e unhas a condizer. Mas o jantar algo romântico é interrompido pelo grandalhão (outro clássico dos filmes Bond é a existência de dois vilões: o cérebro e o grandalhão), que dá um enxerto de porrada ao Bond até que a Madeleine lhe prega com dois tiros e conseguem livrar-se dele. Depois entra o instrumental da música do Sam Smith e já estão os dois a enroscar-se na carruagem cama.


No dia seguinte saem do comboio no meio do nada, a Madeleine irrepreensivelmente french chic com a sua roupinha passada a ferro... e as unhas dela já não estão vermelhas.

Isto, senhores da produção, isto é irrealista. Eu aceito as piruetas de helicóptero, as explosões e os gadgets sem problema. Agora isto não tem ponta por onde se lhe pegue. Porque o que me estão a dizer é que esta mulher tem o Daniel Craig na cama e em vez de abusar pecaminosamente dele durante a noite toda, a dada altura resolveu ir arranjar as unhas.

Creio que todos que me lêem concordarão que ninguém no seu juízo perfeito tomaria uma tal opção. Tenho dito.

8 comentários :

  1. Ahahahah!!!!! Adoro.
    (Agora a sério, tenho um voucher para ir ver isto - daqueles em que 2 só pagam 1 bilhete - e estava na dúvida. Agora vou mesmo. Obrigada!)

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  2. Eu também tenho 1 voucher de 1 bilhete e outro de 2 paga 1 ou 1 bilhete+pipocas+bebida. E está "reservado" para este filme concerteza!

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  3. Aiopá, isto é de uma perspicácia perturbadora!

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    1. Agradeço o elogio e regozijo em saber que há mais pessoas a partilhar da minha preocupação sobre a seriedade e realismo no cinema :-P

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  4. Já vi o filme.
    Para mim é daqueles filme que. somente, num GRANDE écran.
    Adorei a sequência inicial e, quanto às observações aqui feitas, tiro o meu chapéu!

    Volte com mais "criticas cinéfilas"

    HV

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  5. Patrícia, só mesmo tu, conhecendo-te, como tenho o privilegio de conhecer, é que repararias nisto!!
    Muito bom!
    Volta mais vezes, é bom ler-te!

    Marlene

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    1. Ahahah já me conheces bem sim senhora! A ver se escrevo mais a partir de Janeiro - esta é a altura mais intensa do ano no meu trabalho! Beijinho <3

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