nunca digas desta água não beberei


Se há uma vertente da moda que não me diz absolutamente nada, é a roupa desportiva. De vez em quando vejo notícias sobre novas colecções da marca X ou Y, colaborações criativas, etc., olho para os preços e penso, mas isto é roupa para transpirar. A mesma coisa se passa com ténis. Olhem que já dei quantias bem obscenas por sapatos, mas tenho anticorpos a pagar muito dinheiro por ténis. Para mim é um calçado que deve ser encarado estritamente na sua vertente funcional de conforto, segurança e adequação à actividade desportiva pretendida.

Isto já vos deixa adivinhar que não sou nem nunca fui grande entusiasta de actividade desportiva. Odiava e desprezava as aulas de Educação Física, que consistiam essencialmente em desportos de equipa nos quais sou uma nulidade, porque falta-me a destreza de reacção necessária. Enfim, graças à sinusite tinha umas dispensas médicas e raramente praticava mesmo desporto, mas ainda assim e num pleno assomo de inutilidade e idiotice, os professores insistiam que eu me equipasse para ficar sentada no banco. Uma perda de tempo e de energia. 

Entretanto e fora do liceu comecei a aprender natação e a praticar aeróbica (minha nossa que coisa tão anos 90). Fui praticando natação on and off durante uns anos e quando vim para Lisboa andei nas piscinas do Estádio Universitário mas não gostava nada da piscina grande porque nos fazem nadar em fila indiana o que me deixava pouco à vontade, porque se paramos ou abrandamos o nadador de trás choca connosco. Eu se pudesse nadava dentro de uma daquelas gaiolas que os mergulhadores usam contra os tubarões para ninguém me importunar!

Depois disso pratiquei dança até que o ginásio em questão acabou com a modalidade porque só duas pessoas (eu e outra moça) iam às aulas regularmente. Mudei de escritório e inscrevi-me no Holmes Place mesmo ao pé mas o ginásio nunca me agradou muito. Ainda estou para perceber porque é que os exercícios hoje em dia têm todos nomes estrangeiros e porque é que o antigo jogging passou a running. Nesses tempos o que praticava mais era hidroginástica, mas sucede que (i) eles foram alterando os horários até me ser impossível ir a essas aulas e (ii) por muito truques que usasse, o cloro da piscina fazia horrores à minha pele. Cancelei a inscrição.

Até que chegamos aos dias de hoje, em que após receber feedback positivo de várias colegas inscritas no Fitness Hut, inscrevi-me também e por enquanto, ao fim de duas semanas, estou a gostar bastante do ginásio e do ambiente. Aproveitei estar em plena época de saldos para fazer um pequeno update à minha escassa roupa de exercício (tradução: comprei dois pares de leggings em saldo na Mango, cuja colecção de desporto é bem catita), e achei melhor comprar um segundo par de ténis para não estar sempre a usar os mesmos, uns Adidas comprados também em saldo há uns anos. 

Então chego à SportZone, experimento um ou dois pares das marcas da loja (a Doone e a Outpace) e já tinha uns Outpace na mão prontos a comprar quando resolvi dar uma última volta pela loja e vi o expositor dos Nike Free na parede. Porque não experimentar um último par, pensei eu, e quando me vi com eles nos pés soube imediatamente que a minha carteira estava lixada. É que mesmo com 30% de desconto e a um preço francamente barato para uns Nike, eles custavam o dobro dos Outpace que eu estava prestes a comprar, mas a diferença sentia-se nos pés. Mesmo. A diferença a nível de conforto e leveza é notória - pelo que vinha escrito na caixa, percebo que estes ténis foram concebidos para deixar o pé mais livre: diz a marca "Nike Free shoes are specifically designed to let your feet move more naturally and freely than traditional athletic shoes". E lá vieram comigo os Nike Free 5.0 Flash Hyper Jade (isto parece o nome de um programa de computador), usei-os ontem pela primeira vez e parece que vamos ser muito felizes juntos.

Agora para a felicidade ser completa só faltava aparecer o meu soutien de desporto favorito (uma pechincha comprada na Primark que rivalizava com peças a custar o triplo) que parece ter sido engolido por um buraco negro, porque há meses que o procuro sem sucesso. Ó destino cruel.

SAG awards 2015 | keira knightley


Tenho a dizer que nunca achei grande graça à Keira Knightley, tanto que verifico ser esta a primeira aparição neste cantinho em vários anos a falar de tapete vermelho. Tenho a sensação que ela está sempre a fazer a mesma cara em todos os papéis que interpreta. Dito isto, achei este vestido Erdem simplesmente lindíssimo - pelos vistos a colecção Erdem deste ano foi eleita a roupa de eleição para grávidas no tapete vermelho, visto que tal como Sophie Hunter, que envergou Erdem nos Globos de Ouro, também Keira está à espera de bebé. É fácil perceber porquê: o corte império destaca o terço superior da figura e deixa a barriguinha confortável.


Keira teve também uma das melhores maquilhagens da noite: um smoky eye acastanhado impecavelmente esfumado...

SAG awards 2015 | lupita nyong'o


Tal como Claire Danes, Lupita Nyong'o é outro caso em que o vestido dos Globos de Ouro me deixou indiferente mas isto, meus caros, isto é um raio de sol de Primavera. O vestido Elie Saab brilhou sem precisar de mais nada, e com este sorriso quem precisa de acessórios?  

SAG awards 2015 | claire danes


E se os Globos de Ouro me deixaram indiferente, bastou ver dois ou três modelitos do tapete vermelho dos Screen Actor's Guild Awards para começar a bater palminhas desalmadamente como as focas do Zoomarine. Com este Marc Jacobs da Claire Danes foi amor à primeira vista. A cor fica-lhe lindamente e o vestido tem uma série de elementos originais combinados com mestria e impecável execução.


A maquilhagem estaria igualmente perfeita não fosse um pormenor: não me agrada o risco "fechado" do eyeliner em todo o contorno dos olhos, que escurece e torna mais pequeno o olhar. A nossa Claire veio involuntariamente dar uma demonstração do que menciona a Marlene Vinha nesta recente entrada do Pretty Exquisite!

PS: estou a meio de uma tentativa semifalhada de instalar comentários Disqus aqui no estaminé. Enquanto o apoio técnico não me responde, mantém-se os comentários do Blogger.

afinal o que é uma "cushion foundation"?


O novo lançamento da Lancôme para 2015 é a base de maquilhagem Miracle Cushion, que deverá surgir nas perfumarias nas próximas semanas. Depois dos BB Cream, é mais uma tendência nascida na Ásia - mais precisamente, na Coreia do Sul - que chega a terras europeias para deleite das makeup addicts. Mas há que perguntar antes do mais: afinal o que é uma cushion foundation?

cushion foundation é uma esponja embebida numa base líquida, que se liberta pressionando a cushion com o aplicador. O produto é então aplicado em pequenos toques no rosto, deixando um acabamento muito natural. As cushion foundation têm cobertura entre baixa e média, geralmente dispensam a aplicação de pó, têm SPF incorporado e uma duração bastante elevada - foram criadas para suportar o Verão coreano que é bastante quente e húmido.

Neste vídeo da youtuber Liah Woo podem ver uma descrição e comparação entre as marcas mais conhecidas de cushion foundation. Eu tenho a Hera UV Mist Cushion, mencionada aos 04:00 do vídeo, sobre a qual infra passarei a tecer as minhas opiniões.


A minha Hera UV Mist Cushion Longstay na cor C23 foi comprada no eBay e custou-me € 31,95. Por este preço veio a cushion foundation na sua embalagem com aplicador e ainda uma recarga em embalagem selada em vácuo, que ainda não abri. Nos primeiros momentos de aplicação o produto parece um bocadinho estranho mas até é agradável de aplicar e dá uma sensação fresquinha na pele. Passados uns minutos parece fundir-se e desaparecer, deixando um impressionante aspecto de pele nua. 


Tenho pele mista/oleosa e este é um dos poucos produtos que realmente dispensa o pó, acho-o notável. Eu recomendaria este produto para peles que não necessitem de cobrir grandes imperfeições, e/ou peles que tenham dificuldades em fixar a maquilhagem devido ao calor e/ou oleosidade. Não vos dará automaticamente aquele glow quase sobrenatural das peles asiáticas (para isso precisam de muitos meses de dedicação ao skincare), mas é uma ajudinha simpática. Não sei como se portará em peles mais secas.


O meu grande problema com a Hera UV Mist e, enfim, com a maioria dos produtos de maquilhagem asiáticos, é que mesmo as cores mais escuras da gama deles são muito claras para mim. Aliás a cor da base na esponja é enganadora, pois a cor sai bem mais clara do que parece. Adoraria usar a Hera UV Mist no Verão, porém a cor mais escura da gama, o C23, consegue ser mais clara que a minha cor de Inverno (safa-se corrigida com bronzer e blush por cima). É aqui que a Lancôme pode fazer maravilhas porque a sua Miracle Cushion apresenta-se numa gama bastante completa de tons! E consta que tal como as cushion foundation asiáticas, é possível comprar recargas do produto. Amigos da pele e amigos da carteira.


A Miracle Cushion da Lancôme apresenta-se em seis tons e terá um preço estimado em € 40. Na loja online espanhola Primor.eu encontra-se já disponível com desconto, ao preço de € 29,95.

golden globes 2015: este ano vai tudo ao molho que a colheita é fraquinha

Já pensavam que me tinha esquecido? A verdade é que este ano a colheita estilística dos Globos de Ouro foi, para a minha singela opinião, um aborrecimento. São gostos. Uma sucessão de coisas bonitinhas mas desinteressantes, pontuadas por alguns riscos que talvez não tenham corrido muito bem. Deixo já em jeito de teaser, que achei o tapete vermelho dos Screen Actor's Guild Awards infinitamente mais excitante, e esse dará azo a algumas entradas bem detalhadas ao longo desta semana. E agora, os modelitos que, passadas duas semanas, verdadeiramente me ficaram na retina:


O vestidinho Gucci amarelo de Naomi Watts foi uma lufada de ar fresco e luminosidade. A cor fica-lhe muito bem, o corte é impecável, e as jóias Bulgari dão-lhe o toque de estrela de Hollywood. 


E agora porque sim, uma foto de Naomi com o seu marido Liev Schreiber (honroso membro da minha lista «actores que eu adoro mas 90% das pessoas não sabem quem são»), num smoking Prada azul-marinho que vai lindamente com o vestido da mulher.


Em termos de coisinhas mais originais, o jumpsuit Lanvin da Emma Stone ganhou aos pontos. Ajuda ter um corte impecável, e ajuda ser a Emma Stone. Isto é daquelas coisas que o resto da humanidade tem de envergar com muito cuidado.


Também amei o smoky eye azulado, o batom rosa suave e o cabelo meio despenteado.


E não resisto a mostrar o pormenor do sapatinho clássico Louboutin.


Pode não ser a invenção da roda, mas gostei bastante deste vestido Versace envergado pela Jessica Chastain. A cor bronze fica muito bem com os tons de pele e de cabelo da actriz.


Com o cabelo meio preso em ondas a cair todas de um lado, Jessica tem qualquer coisa de Veronica Lake moderna. Este glamour à Hollywood clássica não é qualquer uma que consegue.


Sophie Hunter, actriz e encenadora de teatro, acompanhou o noivo Benedict Cumberbatch envergando um lindíssimo vestido Erdem impecavelmente cortado, com o devido espaço para bolsos (os vestidos com bolsos são uma das grandes invenções da história do Universo) e para o Cumberbaby que o feliz casal espera. 


Finalmente, o vestidinho Dior da Felicity Jones. Cor lindíssima, corte impecável, e a prova provada que não são precisas jóias ofuscantes ou decotes vertiginosos para brilhar no tapete vermelho. A Dior teve umas aparições duvidosas no ano passado, mas isto é um belíssimo começo para a awards season.

5 coisas que já deixávamos em 2014

Eu sei que já estamos quase em Fevereiro, mas deixem-me pregar mais alguns pregos no caixão do ano findo, para começar a programação de 2015 com o disco rígido limpo e formatado; que senão o sistema custa a arrancar, isso custa. E vós que me ledes estão a levar com metáforas informáticas porque eu ando há três dias a tentar perceber como funciona o Windows 8 e entretanto faleceu-me um disco rígido externo, ora abóboras.

#01 "Tendências" inspiradas nas Kardashian

Lamento se estou a fazer ruir o vosso mundo, mas a Kim Kardashian não inventou a arte do contorno. Desde os seus primórdios que a maquilhagem joga com luz e sombra, e os precursores do contorno encontram-se entre os muitos maquilhadores anónimos que na era dourada de Hollywood faziam de mulheres como Greta Garbo ou Marlene Dietrich autênticas deusas. O contorno sempre foi usado nas artes de palco e começou a ter divulgação mainstream através do maquilhador Kevyn Aucoin. O meu primeiro livro de maquilhagem foi o Making Faces, que já é da década de 90, e tem uma secção muito clara e bem ilustrada dedicada a este tema. 

Portanto: não, a Kim Kardashian não inventou o contorno. Sim, o contorno é muito útil mas façam o favor de não exagerar que senão parece que têm a cara às riscas. E diacho, já estou farta de ver todas as marcas e mais o cão, o gato e o periquito a lançar produtos de contorno.

Quanto aos lábios da Kylie Jenner, quanto menos se disser melhor. Vamos todos fazer de conta que acreditamos em ti e que isso é tudo natural, querida.

#02 Colar a palavra gourmet a tudo e mais alguma coisa

Sim, o contraste criado pela aplicação de técnicas e ingredientes requintados a pratos comuns e rápidos é um conceito giro e tem resultados interessantes. Ou pelo menos era um conceito giro antes de ter sido copiado e repetido até à exaustão, que agora não se atira uma pedra sem que não acerte numa tasca ou mercearia gourmet. Larguem o dicionário e concentrem-se na comidinha, se não se importam.

#03 Detox

Este tema é um dos meus odiozinhos de estimação, e "rebentou" em cheio em 2014 com aquela modinha dos sumos verdes. O conceito de detox é cerca de 90% falácia (e só não digo que é 100% porque estou bem disposta hoje), pois o corpo humano já tem dois órgãos que tratam da desintoxicação e eliminação de impurezas: o fígado e os rins. Bebam muita água, não fumem e não comam porcarias, que têm o assunto tratado.

Citando um conhecido anúncio radiofónico que muito me irrita, ninguém tem "quilos de resíduos" no organismo a não ser que tenha uma doença muito grave. Já o outro anúncio ao xarope que limpa os pulmões aos fumadores é ainda mais incrível ao mencionar os imensos "componentes nocivos" que supostamente respiramos entre os quais o azoto, gás que compõe 78% da atmosfera do planeta desde há 3,5 biliões de anos. Se isto fosse tóxico, parece-me que não seríamos hoje sete biliões de seres humanos. Mas pode ser que eu esteja errada. Vai-se a ver e é um bom desentupidor de canos.

Quanto ao suminho verde, bem, é sempre bom consumir mais frutas e legumes, mas não fiquem à espera que vos mude a vida. A não ser que entrem naquela história de consumir apenas sumos durante alguns dias que se tem tornado popular ultimamente. Aí a vossa vida irá mudar porque (a) vão passar o dia a correr para a casa de banho devido à grande quantidade de líquidos e fibra ingeridos (b) vão ficar absolutamente esgazeados de fome e (c) bem podem emagrecer, mas o que perderam foi só água e vai voltar num instante quando forem devorar um hamburguer duplo para quebrar o jejum.

#04 Nail art

Em tempos antigos, os membros da aristocracia chinesa - tanto homens como mulheres - exibiam unhas incrivelmente longas e nada práticas, como símbolo da sua riqueza e status. Significava que eram tão ricos que não necessitavam de fazer qualquer trabalho manual. 

Hoje em dia desenham-se Hello Kittys nas unhas, colam-se purpurinas, pérolas, lacinhos, etc. Daqui a umas centenas de anos algum antropólogo irá investigar o significado disto, porque eu francamente não chego lá.

#05 Justin Bieber

Eu até propunha mandá-lo definitivamente para as Ilhas Selvagens, mas acho que a população de cagarras não iria sobreviver à poluição sonora daquela vozinha estridente.

Fonte

E agora vou ver se preparo umas entradas sobre maquilhagem, que isto ultimamente anda muito sério por aqui.

as inconveniências da liberdade


Declaração Universal dos Direitos do Homem 

Adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas
na sua Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948 

Artigo 1.º
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. 

Artigo 18.º
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.

Artigo 19.º
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.

Ontem mataram doze pessoas na redacção de um jornal em França. Mais quatro estão hospitalizadas em estado grave e outras sete sofreram ferimentos mais leves. Este jornal, o Charlie Hebdo, era uma publicação satírica conhecida pelos seus cartoons que gozavam com tudo e todos. E quando dizemos gozavam, falamos da sátira levada ao extremo, sem pudor nem preocupação pelo politicamente correcto. Podemos discutir o gosto ou a conveniência dos cartoons do Charlie Hebdo. Não temos o direito de os julgar. Não temos o direito de os censurar.

Mas a par da impressionante onda de solidariedade que se levanta por todo o mundo, representada pela hashtag #JeSuisCharlie, por manifestações pela liberdade de expressão da mais variada índole, outra corrente se desenvolve. A dos cobardes. A daqueles que dizem "gozaram com os muçulmanos, do que estavam à espera? deviam era ter ficado caladinhos" sem perceber a obscenidade da sua afirmação. 

Pois é. Realmente, do que esta malta se foi lembrar: exercer despudoradamente um direito fundamental do ser humano! E sem sequer fazer primeiro, sei lá, um inquérito de opinião para saber se alguém podia ser ligeiramente ofendido pelos seus "bonecos"! Estavam mesmo a pedi-las, estes. São como aquelas mulheres que saem à rua de mini-saia e depois vêm queixar-se que são assediadas e até violadas. Do que é que estavam à espera? A bem dizer, se calhar alguns muçulmanos radicais é que têm razão, deviam andar caladinhas e de burka. Agora que eu peguei no argumento e o reduzi ao absurdo talvez estejam a sentir-se desconfortáveis. São inconvenientes, estas coisas da lógica e da argumentação, quando as levamos ao fundo em vez de lhes pegar pela rama e despejar duas ou três pseudo-reflexões no Facebook.

Agora vou explicar-vos um facto da vida. Algures no mundo haverá sempre alguém a fazer e dizer coisas que outro alguém considera ofensivas ou inconvenientes. Neste momento algures no Facebook alguém está a escrever um comentário que vocês vão achar horrível e despropositado. Têm todo o direito de discordar. Têm aliás tanto direito de discordar, como a outra pessoa tem o direito de escrever o que escreveu. É isso a liberdade de expressão. E no momento em que começamos a cercear a liberdade de expressão porque há coisas que são "inconvenientes" isso tem um só nome amigos, e esse nome é CENSURA.

Permitam-me citar Miguel Esteves Cardoso na sua crónica de hoje no Público:

«Os mais perigosos inimigos da liberdade de expressão são pessoas inteligentes e bem-intencionadas que publicamente pedem tratamento especial para a religião islâmica (ou qualquer outra religião) para não "ferir susceptibilidades" ou "fazer provocações". São pessoas liberais que defendem calmamente a protecção das sensibilidades muçulmanas através da violação da liberdade de expressão, por muito civilizada e politicamente correcta que seja a forma de censura que propõem.»

Infelizmente a doença da "inconveniência" tem raízes profundas no nosso Portugal, talvez resquício mal resolvido do "lápis azul" que durante décadas controlou a imprensa e as artes criativas no país. Nos anos 80 tiraram do ar um programa do Herman José por causa de um sketch com a Rainha Santa Isabel que chegou a ser discutido na Assembleia da República. Em 1992 o cartoonista português António publicou uma caricatura do Papa João Paulo II com um preservativo pendurado no nariz, em sátira à posição da Igreja Católica sobre o uso de contraceptivos, e ia caindo o Carmo e a Trindade.

Quanto a estes e muitos outros exemplos, e nomeadamente quanto às caricaturas do Charlie Hebdo que atacavam o extremismo religioso e motivaram o hediondo ataque de ontem, muito se pode dizer e todos temos direito a uma opinião. Sim, até podemos achar de mau gosto. Ofensivo. Despropositado. Mas numa sociedade livre atacam-se argumentos com argumentos. Não se atacam os autores do argumento. Muito menos com disparos de metralhadora.

Porque as balas disparadas ontem não o foram apenas contra uma vintena de membros da redacção do Charlie Hebdo e mais dois polícias. Foram disparadas contra todos os jornalistas do mundo e contra todos os seres humanos que têm a inalienável liberdade de fazer ouvir a sua voz e expressar a sua opinião, por muito inconveniente que ela seja.

E cada pessoa que hoje vier dizer "deviam era ter ficado caladinhos" é mais um que foi atingido pelas balas disparadas ontem em Paris.
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